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terça-feira, 25 de junho de 2019

SSC, RACK, PRICK, CCC: sopa de letrinhas do BDSM – Parte 2



Eu demorei para entender as bases do BDSM. Demorei porque são muitas letras, muitos conceitos e, na maioria das vezes, eles não estão muito claros. Tem muita definição mas pouca explicação. E, o que percebi é que, quando se trata de conceitos da liturgia BDSM, tem muito Crtl+C/Crtl+V e pouco conteúdo verificado.


Sem exceção, todos os que começam a estudar sobre BDSM se deparam com a sigla SSC e são informados de sua vital importância para uma boa prática. Parece que é automático: se você se diz um Top ou um bottom sério, logo você usa o SSC.

Mas então, ao se aprofundar nos estudos ou debates, você descobre que algumas pessoas não concordam com o SSC. Dizem que ele não é completo e debates inflamados ocorrem nos grupos e mesas de encontros. Você houve pela primeira vez a sigla RACK; alguém mais inflamado fala sobre PRICK... mas que raios é tudo isso? O SSC não é a base de tudo?

Primeiro, vamos entender o que é SSC.
SSC é uma tríade que coloca a Sanidade, a Segurança e a Consensualidade como bases para as práticas BDSM. Tendo sido criada pelo escravo David Stein, de New Jersey, e utilizada pela primeira vez pela GMSMA (Gay Male SM Activist), em 1983, sendo porém extremamente difundida durante a Marcha do Couro de 1987.

Resultado de imagem para 1987 March on Washington, Leather Contingent

Nas palavras do próprio Stein:O que queríamos dizer com “S / M seguro e saudável” em 1983 (e o que eu acredito que ainda significa para a GMSMA e a maioria das outras organizações hoje) é algo como “Divirta-se, mas mantenha a cabeça e entenda o que você está fazendo, para que você não acabe morto ou no hospital - ou mande alguém para lá.” tradução livre *



Se quiserem saber mais sobre a história por trás da origem do SSC clica no link no final do artigo (em inglês).

Mas porque falam tanto de SSC? Porque é o princípio do fundamento do BDSM.
Quando você inicia os seus aprendizados em matemática, não começa pela fórmula de Báskara... você aprende a somar 2+2..

A maioria dos praticantes experientes são RACK, não SSC. Não porque eles não pratiquem nos moldes do SSC, mas porque eles transcendem ao SSC.

Só que eu não vou chegar num bottom iniciante e falar... ah.. eu não uso SSC... eu uso RACK.
Primeiro porque ele não fará a mínima ideia do que estou falando.
Segundo porque ele, sendo iniciante, precisa saber que eu sou uma pessoa plenamente consciente dos meus atos e desejos (sanidade), tomo todas as medidas de segurança para que nada dê errado durante as práticas que eu realizar ou me submeter (segurança) e que eu e meu parceiro estamos fazendo tudo aquilo de livre e espontânea vontade (consensualidade)... SSC... ou seja, 2+2.

Porém, quando você começa a amadurecer no BDSM, descobre que, mesmo tomando todas as medidas de segurança, algo pode dar errado... no entanto, mesmo sabendo que algo possa dar errado, você assume os riscos daquela práticas.
Por exemplo, uma prática edge: num bloodplay, eu sei que o meu parceiro vai entrar em contato o meu sangue; numa escarificação, eu posso ter problemas na cicatrização, algo pode infeccionar; num fireplay, algo pode dar errado com o fogo.

Então você percebe que, mesmo o quesito segurança estando todo cumprido, algo pode dar errado e o SSC é incompleto... No momento em que você tem conhecimento, "assume os riscos" e suas consequências, a sua dinâmica passa a se encaixar na RACK... não mais no SSC.

RACK é a sigla de Risk-Aware Consensual Kink que significa que os parceiros estão Cientes do Risco da prática e que estão fazendo consensualmente. O conceito por trás do RACK é a conscientização e o estudo. Os praticantes devem se esforçar para aprender tudo o que há sobre aquela prática antes de se envolver nela.

Mas, Lilica, e aí?.. eu aprendi que o SSC é o fundamento de tudo... se não tiver SSC é abuso. Calma que isso é só o começo. 

Então todo mundo só fala do Dominador. Que o Dominador é responsável por tudo... que ele tem que tomar todas as medidas para cumprir com o SSC ou RACK e se, Ele não o fizer, Ele é um abusador, é despreparado. Você, submissa, na negociação, percebe que o cara é gente boa, vai lá e se entrega totalmente porque, se algo der errado, a culpa é do Top que não tomou conta de tudo, afinal, a responsabilidade do Top é “cuidar da submissa”.

Aí surge uma voz na multidão que fala: “Olha, dona Submissa. Você não aceitou fazer tal coisa? Não foi consensual? Você estudou pra conhecer a prática antes de fazer? Ou achou que o Top ia fazer tudo? Você também é co-responsável nesta brincadeira. A responsabilidade é PESSOAL. O Top é responsável e você também é responsável”.

Neste momento, estamos falando de PRICK – Personal Responsibility in Informed Consensual Kink, que significa que você está munida de todas as informações e assume a responsabilidade pessoal pelo que pode acontecer durante uma prática, consentindo nela.

A responsabilidade do bottom é muito maior do que apenas comunicar o Top se algo está errado durante a sessão. Ela tem que conhecer tanto quanto Ele; é um estágio a mais. O bottom tem que conhecer para saber se o Top também conhece. Um bottom que tem conhecimento não é enganado e não se entrega a qualquer um, porque está munido de informações para saber se aquele Top sabe realmente o que está fazendo ou é apenas mais um aventureiro. Sempre digo que conhecimento é a principal arma de um bottom.

Esta é uma das bases mais criticadas pelos membros da comunidade pois entende-se que é muito difícil alguém estar plenamente informado de tudo.

Importante perceber que o PRICK surge como uma evolução do RACK que, por sua vez, é uma evolução do SSC. Percebe o como a coisa começa a criar forma e que o SSC não abrange mais tudo?

Pode acontecer por sua vez que, superada todas as outras bases anteriores, o submisso entra num nível de entrega pelo qual entende que, como peça, não deseja ter mais direitos e quer fazer ao Top uma cessão total de poder. É uma decisão que deve ser tomada muito conscientemente pois o Top terá total e irrestrito poder sobre ele,... nesse nível a única coisa que se negocia são limites físicos rígidos. Não tem mais safeword, prevalecendo o bom senso do Dono.

Neste momento estamos falando de CCC – Commited, Compassionate, Consensual que é a troca máxima de poder entre um bottom e um Top e abrange, essencialmente, as relações TPE 24/7 de longo prazo. Desnecessário dizer que os riscos envolvidos numa relação desse nível são muito altos, sendo importante que a negociação seja bem feita para a manutenção dos limites da consensualidade, que é base das bases do SM.

Pois bem... ninguém entra numa relação direto no RACK, ou direto no PRICK.... nem muito menos no CCC... toda relação sempre começa no SSC. Por isso se fala mais em SSC do que nas outras bases.
Da mesma forma, raríssimas relações começam TPE, poucas PPE, a maioria começam apenas como EPE, e, com a evolução da relação, a concessão de poder vai aumentando.

Existem outras bases menos conhecidas e, algumas delas, eu sinceramente só vi em textos nacionais, como o SSS e o RIISCK, portanto não vou me prolongar nelas.

CNC não é base BDSM pois exclui do tripé aquilo que nos diferencia dos sadomasoquistas patológicos: a consensualidade. Na verdade, pra mim CNC é uma interpretação equivocada do CCC. No CCC você não deixa de consentir. O que acontece é que você consente em entregar poder total e absoluto, pois confia integralmente no bom senso do Top. Se o Top quebrar esta confiança o bottom tem todo o direito de sair da relação.

Parafilia é a erotização alternativa ou estilo de vida eroticamente diferente.
Transtornos Parafílicos é doença.
O que diferencia os dois?
1 - Consensualidade; que implica que a parceria deve ser, humana, viva, e mentalmente capaz de oferecer consentimento para a prática.
2- A prática não deve causar sofrimento clinicamente significativo. Isso é não deve causar sofrimento psicológico não buscado nem oriundo de medo de julgamento social.
Ou seja, para que uma parafilia seja considerado um transtorno, o que está sendo feito deve ferir um dos dois critérios.
A quebra da Consensualidade transforma o sadismo erótico num sadismo patológico, fugindo totalmente do BDSM e se tornando algo clínico.


Bom... o texto ficou longo mas ilustra um pouco da minha compreensão sobre as bases mais discutidas no BDSM.
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Não importando a base que você use nas suas relações (sejam D/s, sejam avulsas), em todas elas tem um C envolvido. Este C é o da Consensualidade.

Consentimento é a “base de todas as bases”.

Meus respeitos.
Lilica de Mestre Gregório



Bônus: em 2014, um estudo do Departamento de Sociologia da Universidade de Idaho/USA, apresentava uma nova base - os 4Cs – Communication, Caring, Caution, Consent.
Vale uma olhada:


Fontes:

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  Em 2008, quando eu ainda servia ao Senhor FA e me chamava Emanuelle, criei o blog Diário de Emanuelle com a intenção de traduzir em pal...